segunda-feira, novembro 20, 2006

A menina de Avinhão.


"Não era muito bonita. Não era, decerto, a mais bonita. Não tinha as pernas bem definidas, nem o rabo no sítio. Ancas inexistentes, e uma barriga pendendo desde as mamas, que, diga-se de passagem, não eram as melhores que já tinha comido. Mas havia nela algo de diferente – há sempre, para meu desgosto, algo de diferente. Terá sido essa a justificação que usei, para a escolher entre todas as outras. Fiz a minha escolha quando a olhei nos olhos, e vi aquela sua expressão órfã de amor; um olhar de menina, que te enrola num beijo, e te toma entre os braços, e entre as pernas, e se insinua viscosa por entre o peito, cravando-se no coração, como um verme se enterra numa maçã.
É. Foi por isso que a escolhi, entre todas aquelas meninas, alinhadas paralelamente à calçada. Porque as outras prostituíam o que lhes ia nas pernas; esta prostituía o que lhe ia na alma."


A Menina de Avinhão, Karl O checo

4 comentários:

cbs disse...

as pernas não estão sempre ligadas á alma? ou deviam estar, talvez...

howards disse...

que bom ler este excerto....

cbs disse...

parabéns jovem "estatistica"
e agora como é que é?
o país espera que o safes :)

Mimas disse...

este Karl é um bocado checo...