sábado, março 24, 2007

Révanche

Sacrifiquei uma soma enorme e diminui nalguns milhões os meus rendimentos fixos, mas uma das fantasias mais antigas da minha mocidade converteu-se em facto.
Vivi durante muitos anos em horríveis habitações, nos bairros mais populosos da cidade mais populosa, poeirenta e ruidosa do mundo.

E sonhava que um homem poderosíssimo poderia um dia divertir-se restituindo à Natureza um pedaço daquela cidade asquerosa, derrubando casas, descalçando ruas e fazendo voltar o ar limpo aonde havia corrupção, as árvores floridas aonde corriam as cloacas, o silencio aonde havia estrondo, a solidão aonde milhares de homens se amontoavam em túmulos de pedras sobrepostas.

Este pensamento orientou-me, talvez sem me aperceber, quando comecei a comprar muitas casas, num dos bairros mais populares de New York.
Mas quando verifiquei que possuía duas ou três ruas inteiras, e com excepção de alguns pedaços, o bairro todo, assaltou-me com estranho vigor a lembrança e a tentação daquele sonho.
Devagar, consegui comprar as poucas casas que não eram de minha propriedade e encontrei-me dono absoluto de vinte hectares de New York.

Os vinte hectares foram separados por um muro alto, sem janelas, cancelas nem portões – o ingresso para mim é subterrâneo – e um exército de botânicos, zoólogos e engenheiros, após três anos de trabalho, operaram o milagre.
No lugar do asqueroso bairro habitado por operários, empregados e pequenos comerciantes, encontra-se agora uma espécie de selva virgem, com longos bosques, prados e canais, onde os pássaros cantam, as arvores florescem e só se ouve, longínquo e confuso, no rumor da cidade infernal.

Só eu desfruto este pequeno paraíso terrestre reconquistado.
Nas ruas por onde todos passavam, só eu passo.
Onde os automóveis uivavam e punham mau cheiro, passeiam os plácidos ursos.
Onde o prestamista se postava á espera de uma vítima, agora o chacal alegra-se ao Sol.
Reservei-me no coração de uma cidade orgulhosa e colossal, o verdadeiro luxo, o mais caro de um homem moderno: o isolamento e o silencio.

Os de fora, que vêem os altos muros despidos, mas conseguem, do cimo dos seus edifícios circundantes, ver o que está lá dentro, exclamam: capricho de um doido!
Eu, porém tenho a impressão de ter construído para mim, no recinto de um vasto manicómio, uma pequena mas alegre cela de sabedoria.
Aldrabado apartir de Giovanni Papini, Gog 1931

4 comentários:

guevara disse...

grande e precioso luxo de um sábio louco!

fontez disse...

fantastica visao...
luxuosidade

Rui Luís Lima disse...

olá

se gostas de cinema vem visitar-nos em

www.paixoesedesejos.blogspot.com

todos os dias falamos de um filme diferente

paula e rui lima

Anónimo disse...

"Só eu desfruto este pequeno paraíso terrestre reconquistado.
"

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tb posso?

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excelente "apropriação" de G. P.

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bom fim de semana.



(piano)